
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou que a empresa Tools for Humanity (TFH, “ferramentas para humanidade”, em português) suspenda o pagamento de incentivo financeiro em troca da leitura da íris, prática que ficou conhecida pela população como “venda do olho” em São Paulo. A empresa foi notificada pelo governo federal nesta sexta-feira (24/1) e a medida vale a partir deste sábado (25/1).
O projeto World, desenvolvido por bilionários da Inteligência Artificial, entre eles Sam Altman, da OpenAI, já levou mais de 400 mil pessoas a formar filas em São Paulo para receber criptoativos que podem render em torno de R$ 600, em troca da leitura da íris, que é uma informação única, como a impressão digital.
Segundo a empresa TFH, comprovar que a pessoa é um “ser humano único”, por meio da leitura presencial da íris, é fundamental para garantir a segurança na internet. O procedimento é alvo de investigação e já entrou na mira das autoridades em vários países.
A reportagem também notou que famílias inteiras têm se submetido à leitura da íris pela máquina chamada de orb, uma esfera cromada, futurista. A possibilidade de resgatar o equivalente a 20 das 48 moedas virtuais ligadas à iniciativa, entre 24 e 48 horas após o registro, tem sido o principal atrativo para a população, principalmente na periferia da capital paulista.
O Metrópoles foi a oito postos de leitura da íris na capital paulista, viu e ouviu as mais variadas situações nesta semana. As máquinas da TFH estão presentes em ruas de comércio popular e shoppings, bem como em pequenas lojas que chamam a atenção pelo entra e sai. Os lugares chegam a receber mais de 500 pessoas por dia.
Especialistas em proteção de dados afirmam que a prática oferece riscos para a população, que teria o seu poder de decisão prejudicado, além de não poder revogar o consentimento.
A coordenação-geral de fiscalização da ANPD diz que a concessão de incentivo financeiro pela empresa, por meio da oferta de criptomoedas, pode prejudicar a obtenção do consentimento do titular de dados pessoais, influenciando na decisão.
“Nos termos da LGPD [Lei Geral de Proteção de Dados], o consentimento para o tratamento de dados pessoais sensíveis, como é o caso de dados biométricos, precisa ser livre, informado, inequívoco e fornecido de maneira específica e destacada, para finalidades específicas”, afirma, em nota.
Além de determinar a suspensão dos pagamentos, a ANPD exigiu que a empresa indique no site quem é o encarregado pelo tratamento dos dados pessoais. A investigação teve início em novembro de 2024, logo depois que a TFH lançou o projeto World no Brasil.
Em países como Espanha e Alemanha, o processo de leitura de íris foi suspenso e está sob investigação das autoridades locais.
O que diz a Tool for Humanity
A TFH afirma que a rede World está em conformidade com todas as leis e regulamentos do Brasil. “Relatos imprecisos recentes e atividades nas mídias sociais resultaram em informações falsas para a ANPD”, diz.
A empresa também afirma que está em contato com a ANPD e confiante de que pode trabalhar com o órgão para que as pessoas possam participar da rede World. “Estamos comprometidos em continuar a oferecer este importante serviço a todos os brasileiros”, diz, em nota.
Desde que foi procurada pela reportagem, a TFH negou que faça pagamento em troca da leitura da íris, apesar da evidente motivação financeira presente nos relatos de quem procura os postos da empresa em São Paulo.
Metrópoles
