
O Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão (HU-UFMA), vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), realizou, pela primeira vez no Nordeste, um transplante de fígado intervivos entre pacientes adultos. Realizado na última quinta-feira, 29, o procedimento representou um marco para a saúde pública no estado, para o hospital, para a família do transplantado e para todas as pessoas que aguardam na lista de espera com a mesma esperança.
O paciente, Antônio Severino da Silva, de 54 anos, sofria de cirrose hepática idiopática. O fígado estava, aos poucos, perdendo a função, causando dores intensas e limitações. Sua irmã, Rosângela da Silva, se disponibilizou a ser doadora. “Surge uma nova esperança. Estou tranquilo e ansioso, mas creio em Deus que vai dar tudo certo. Eu só tenho a agradecer à minha irmã, ao hospital e à equipe médica, que se empenharam muito para que fosse possível esse transplante”, afirmou o paciente, que já está em recuperação.
Avanços na saúde pública
O HU-UFMA realiza transplante hepático com doador falecido desde 2018 e está próximo de alcançar a marca de 60 procedimentos desse tipo. Com a realização do primeiro transplante intervivos, inicia-se um novo momento para a saúde do estado.
Profissionais renomados e com expertise na área, vindos do Rio de Janeiro, juntamente com a equipe do Serviço de Transplante Hepático do HU-UFMA, participaram da cirurgia, que durou cerca de sete horas. O procedimento envolveu duas salas cirúrgicas, equipe multiprofissional, material cirúrgico adequado e retaguarda de UTI para o pós-operatório.
“Primeiro, gostaria de agradecer à instituição pelo apoio neste novo projeto. Nossa equipe já vem se capacitando há bastante tempo para dar esse novo passo, inclusive participando de cirurgias no Rio de Janeiro. O método do transplante hepático intervivos ocorre quando um doador vivo doa parte do seu fígado para um receptor com doença hepática crônica que necessita de um novo órgão”, ressalta o cirurgião responsável técnico pelo Programa de Transplante Hepático do HU-UFMA, Orlando Torres.
O especialista reforça que será possível ampliar o número de pacientes beneficiados pelo procedimento. “O transplante é a principal forma de tratamento do paciente com hepatopatia crônica no chamado estágio terminal. Pessoas com diferentes causas, como metabólica, alcoólica ou viral, por exemplo, podem ser submetidas ao transplante quando há indicação. Agora, vamos conseguir ampliar esse acesso. Aqueles para os quais antes dizíamos que não era possível tendem a passar a ter mais oportunidades”, garante.
Procedimento complexo
O cirurgião Eduardo Fernandes, coordenador dos programas de transplante hepático do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, também da Rede Ebserh, e do Hospital São Lucas de Copacabana, explica que, no transplante adulto, é removido entre 16% e 70% do fígado do doador. “É um procedimento complexo porque envolve uma pessoa viva, que não tem nenhuma doença. Por isso, é necessário um cuidado extremo para não causar nenhum problema em quem vai doar. Daí a sofisticação do pré-operatório e dos exames, que avaliam a possibilidade de preservar a anatomia do doador, sem trazer prejuízo para a sua vida”.
Eduardo afirma que esse tipo de transplante ainda é pouco realizado no Brasil. “Sem dúvida nenhuma, é um grande marco para a medicina do Maranhão. Isso chancela o programa de doador falecido, porque, habitualmente, os serviços que realizam transplante com doador vivo já percorreram uma trajetória de experiência com o doador falecido e, então, avançam para essa fase de maior complexidade”, salienta.
Ele alerta que muitos pacientes morrem na fila de transplante e destaca que o procedimento intervivos renova a esperança, especialmente por permitir que os pacientes não precisem se deslocar para outros estados. “Estou muito feliz de poder dividir essa expertise e passar o bastão para a equipe daqui, para um hospital público, universitário, que tem um papel muito importante na comunidade maranhense e na complexidade da medicina brasileira”, comemora.
HU-UFMA e seu pioneirismo nos transplantes
Para o gerente de Atenção à Saúde da instituição, Dyego de Araújo Brito, o procedimento marca um momento histórico para o hospital. “O HU-UFMA, ao longo dos anos, vem investindo na realização de transplantes de órgãos. Hoje, temos seis serviços habilitados, todos ativos. Esse novo desafio reforça o pioneirismo do hospital na realização de transplantes de órgãos no estado do Maranhão”, enfatiza.
O cirurgião e responsável técnico pelo Serviço de Transplantes do HU-UFMA, Romerito Neiva, explica que, na modalidade de transplante intervivos, não é necessário aguardar um órgão de doador falecido. Nesse caso, o doador é uma pessoa próxima ao paciente, que se dispõe a doar parte do órgão, o que aumenta significativamente as chances de realização do transplante de forma mais rápida.
CNB
